A Sexta-feira Santa de 2008 foi um dia feliz para a classe Pantanal 25. Dark Ice, aquele barco que mostramos fotos sendo rebocado de trailer numa matéria publicada nesta coluna, finalmente deu sua primeira velejada na Baía de Santos.
Existem muitos barcos desta classe sendo construídos em uma dúzia de países diferentes, e pelo menos um deles também já está navegando. No entanto esta é a primeira vez que recebemos um relato completo com um álbum de fotos de como ele se comporta, pelo menos nas condições que prevaleceram naquele dia. Recebemos por e-mail uma foto de um Pantanal 25 extremamente bem feito, construído na Turquia, mas desde então não mais recebemos notícias deste barco. Por isso para nós o Dark Ice ficou como sendo o primeiro barco da classe a sair velejando.
Black Ice foi fabricado em Campinas, S.P., por Jorge Intaschi, um velejador apreciador de regatas que viu no Pantanal 25 o barco de seus sonhos.
Jorge é um analista de sistemas que trabalha no ramo de venda de carros. Como é tão freqüente atualmente entre empresários, seu tempo livre é bastante reduzido. Morando tão longe do mar e sendo seu negócio bastante solicitante, ele precisava de um barco que pudesse ser guardado na garagem de sua casa durante os longos períodos em que não irá dispor de tempo para tirar folga, e por outro lado, quando isso for possível, queria um barco suficientemente confortável, com banheiro fechado, cozinha e camarote privado, para que sua família pudesse permanecer a bordo durante os feriados. Quando ele descobriu o Pantanal 25, concluiu naquele momento que aquele era exatamente o barco que estava procurando.
Jorge foi um dos primeiros a adquirir o projeto, que então havia sido publicado apenas algumas semanas antes. Ficou tão entusiasmado com o potencial do Pantanal 25, que decidiu criar, em sociedade com seu irmão Wagner, uma empresa com site na internet, www.intaschi.com.br, para produzir o modelo em série. Logo em seguida iniciava a construção dos plugs necessários à fabricação das fôrmas.
Embora os irmãos sejam experientes empresários, esse ramo de atividade era inteiramente novo para eles. No entanto, a despeito da falta de conhecimento técnico específico sobre o assunto, decidiram começar por cima, construindo sofisticados moldes para laminação por infusão. Em janeiro de 2007 instalaram a oficina de modelagem e uma das primeiras decisões que tomaram foi a aquisição de um stand no São Paulo Boat Show que iria ocorrer em outubro daquele ano.
Pode-se imaginar a correria que isso representou. Na faina de avançar o serviço, Jorge caiu do convés do plug, rompendo todos os ligamentos de um joelho. Ele compareceu ao salão em uma cadeira de rodas, uma vez que não aceitou ser operado antes que o Boat Show fosse encerrado. No entanto ele não teve por que se arrepender de seu desprendimento, uma vez que seu produto foi uma das vedetes do salão, tendo recebido quinze opções de compra durante os dias da feira, e diariamente formavam-se longas filas para visitar o barco. Agora ele está se recuperando da cirurgia, e finalmente chegou o grande dia da estréia do Dark Ice, exatamente aquele Pantanal 25 que foi exposto no Boat Show.
Reconhecendo que não tinham suficiente experiência para implantar a empresa sem o apoio de alguém especializado, Jorge e Wagner contrataram Eduardo Arena, um respeitado técnico na construção de iates, além de ser reconhecidamente um criativo e habilidoso modelador. A participação de Eduardo em todo o processo de implantação da indústria foi muito oportuna, pois além destas qualificações, ele também é um exímio velejador de competição, além de ser um apreciador das características do projeto.
A sexta-feira de Páscoa não estava muito convidativa para uma velejada. O céu encoberto por nuvens pesadas e um vento fraco e variável não prometia que um teste mais abrangente fosse realizado. Uma frente fria estava sendo esperada para o dia seguinte, de modo que não havia esperança de uma melhora significativa no tempo.
Com o joelho ainda requerendo cuidados, Jorge decidiu acompanhar o teste a bordo da lancha de apoio, e de lá documentar com sua câmara digital as primeiras evoluções de sua criação. Eduardo Arena seria o piloto de teste, assistido por um fabricante e montador de mastros e um profissional da vela.
Definitivamente todos os envolvidos naquela inauguração estavam bastante excitados com o que iria ser revelado logo a seguir. Na ânsia da preparação não houve tempo para cortar os cabos das adriças e das escotas no tamanho certo e as velas ainda não haviam sido verificadas.
A descida do barco à água ocorreu sem imprevistos e logo Dark Ice estava sendo rebocado para mar aberto. Naquele momento já foram esclarecidas algumas dúvidas, tais como o fato do veleiro ter flutuado corretamente em sua linha dágua, e se deslocar de uma forma bastante suave. Quando a lancha ultrapassou a velocidade máxima de casco do Pantanal 25, o leme se tornou pesado para o controle do barco, mas isso era previsto, e bastava levantar um pouco o leme e esse problema estaria equacionado. Nesta classe o leme do tipo guilhotina tem uma regulagem infinita, o que permite diminuir a resistência nestas condições. Preferimos não dar compensação ao leme, pois neste porte de barco temos experiência prévia de que essa medida não é necessária. Logo que o barco começou a velejar constatou-se que nossa decisão estava acertada e o leme se provou ser leve e responsivo.
Jorge, apesar de uma ligeira aceleração de seu ritmo cardíaco, já podia apreciar seu barco velejando no contravento. E como velejou bem! Em cinco nós de vento o Dark Ice estava navegando praticamente com essa mesma velocidade. A estabilidade inicial se mostrou ser excelente e o barco cruzava as primeiras ondas sem esforço, deixando para trás uma esteira quase imperceptível.
Mostrando uma excelente capacidade de orça, o barco demonstrou boa aceleração nas cambadas. Jorge exultava lá do fly-bridge da lancha, chateado com seu joelho por ainda não lhe permitir estar no timão de seu barco.
O vento aumentou para uns doze nós de velocidade, e então o barco que até então se provara ser bem estável, mudou de comportamento, e começou a adernar mais rapidamente. Isso é uma característica do Pantanal, que tem uma boca máxima reduzida e uma boca na linha dágua quase igual a esta boca máxima. Quando a estabilidade de formas começa a diminuir e antes que o lastro comece a atuar mais efetivamente existe uma faixa de menor sustentação, que deverá ser recuperada um pouco mais adiante. A boa constatação foi verificar que com o barco um pouco mais adernado, o leme continuou responsivo e o barco se manteve absolutamente equilibrado, acelerando à medida que o casco adernava.
A volta para a marina permitiu testar o spinnaker assimétrico e ver como o barco se comporta no vento folgado. Como o vento não estava grande coisa, a capacidade de planeio ainda não pode ser verificada, mas aquela era apenas a primeira saída, e logo outras velejadas se sucederão. As fotos que Jorge obteve não são das melhores, mas com aquele tempo nada amigável e a atmosfera tão enevoada, já foi uma vitória conseguirmos essas primeiras fotos. Numa próxima velejada com céu mais azul esperamos poder divulgar fotos de melhor qualidade.
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Roberto Barros
Rio de Janeiro, April 2008
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